quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vânia


- Tá pensado que é bagunça, é? Vou te mostrar uma coisa, viado sem-vergonha...
O som de ossos partindo feriu o ouvido de Arthur, que teve a decência de fingir-se surpreso com a reação da xerife ao deparar-se com o homem franzino que espionara o bairro tempo demais.
- Essa zona aqui têm dona, filadaputa. Já falei praquele outro e agora tô dizendo pra você. Manda teus chefes procurarem outro lugar. O próximo viadinho que eu vir rodando por aqui vai acabar com a presa cheia de formiga!
O rapaz foi arremessado para a rua, chorando de dor, mas Arthur podia sentir que, apesar do braço quebrado e do grande hematoma no rosto, havia um "quê" de agradecimento por terem poupado sua vida. Caminharam em direção as luzes da cidade.
- Tá foda- a voz de Vânia estava cansada, tão cansada que por vezes vacilava em seu falsete sem perceber- têm aparecido mais desses moleques. E, sei lá. Não sei se a gente vai dar conta sabe? Se a história toda for verdade, quanto somos? E quantos eles são? Essa história de vigiar fronteiras e estradas funcionava há uns cem anos atrás, mas agora?
Havia um tom sincero no desabafo da brujah e isso preocupava mais a Arthur do que os rumores a respeito de uma invasão dos terroristas da Espada de Caim. As décadas de convivência na corte vicentina haviam lhe ensinado que não havia gentileza entre membros e quando isso acontecia com alguém estabelecido há tanto tempo era melhor redobrar o cuidado no discurso.
- Vânia- o intimismo da falta de um pronome de tratamento o incomodava, mas era necessário naquele momento- somos muitos e nosso poder reside nas Tradições, reside na Camarila. Você tem desempenhado um trabalho...louvável para o fardo que lhe cabe nesse dominio. Todos nós somos gratos por isso...
Lágrimas rubras brotaram dos olhos de Vânia, fazendo com que Arthur por instantes esquecesse de quem ela era, ou tinha sido um dia. Quase tocou seu ombro, chegou mesmo a estender o braço na intenção de faze-lo, mas percebeu o quanto seria inadequado. Protegeu as mãos frias no bolso da jaqueta, a dignidade da mulher dentro de si e continuou seu caminho rumo ao conselho.

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